08 setembro 2011

Mitos E Lendas: Eros E Psiquê

Por Kleber Godoy

Iniciamos esta nova seção com Eros, Psiquê e o amor proibido entre eles, um mito retirado da mitologia grega, história esta que já foi contada diversas vezes em peças de teatro, filmes e também de diversas formas diferentes, mas com o mesmo sentido. Assim, histórias de amor estão permeadas de dualidade, onde o amor promete felicidade, mas carrega consigo o desafio de manter esta promessa, já que esta promessa é de natureza ilusória quando se pensa pelo olhar psicanalítico de que a busca por amor é impulsionada pelo próprio mal-estar do desejo humano. Lacan, neste sentido, coloca que este sentimento vem para ocupar o lugar faltoso do indivíduo, o que vai de encontro a Freud quando diz que o amor tenta recuperar o que foi castrado, surgindo em forma de desejo, com esperança de completude. O problema é que o objeto escolhido para o encontro amoroso não contém o objeto amado primordialmente perdido. Para Freud, pode-se dizer, que o amor está relacionado à idealização e ao narcisismo primário, sendo a escolha do objeto de amor essencialmente narcisista. Lacan não discorda de Freud, mas em sua releitura do mesmo rumo em direção ao amor com forma de sublimação, destacando o vazio. A história de Eros (cupido, deus do amor, da força do desejo, da atração) e Psiquê (alma) vem para ilustrar um pouco desta busca por completude que todos nós almejamos. Divirtam-se!

Vista de frente do modelo em gesso patinado 'Psiquê revivida pelo beijo de Eros', de Antonio Canova, exposta no Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque.

Tudo começa em uma era de deuses e mortais e na interação entre eles. Psiquê era a filha mais linda de três irmãs e sendo Psiquê mortal e personificação da mais bela mulher, causava inveja na deusa Afrodite (deusa do amor), mãe de Eros. Afrodite conta com seu filho para se vingar da rival, onde ele a flecharia com flechas envenenadas e a faria se apaixonar por um horrendo ser. Mas Eros, ao ver a mortal, fica impressionado com sua beleza, acidenta-se com suas flechas e se apaixona perdidamente por Psiquê, raptando-a para seu castelo dos sonhos, protegidos do mundo, vivendo o mais intenso amor, envoltos de prazer. No entanto, ela não veria a face de seu amado, já que ele aparecia durante a noite para uma sessão de prazeres noturnos, com carinhos, abraços, beijos com muita intensidade e desapareceria ao amanhecer, deixando-a desfrutar de toda comodidade do castelo, atendida por vozes que satisfaziam todas as suas vontades.

Neste castelo Psiquê tinha tudo que queria: banquetes, luxo e tudo que desejasse, além das noites quentes com Eros. Mas havia segredos entre ambos: ela nunca tentaria ver seu rosto e ele esconderia de sua mãe que não cumpriu o que a ela prometeu. E até este ponto podemos dizer que tudo vai bem, apesar de Psiquê não poder ver o rosto de seu amante. Além disso Psiquê encontra a inveja das irmãs que a visitavam e viam sua vida de beleza, luxo e amor, então, decidem-se envenenar contra seu amado e Psiquê passa a acreditar que seu amante era um monstro, uma serpente, um ser horrendo, se questionando se seria possível sê-lo já que este lhe dava intenso prazer.

Para tirar a prova, quando Eros, exausto após o ato sexual, dorme, Psiquê ilumina seu rosto preparada com uma faca para se defender do monstro, mas encontra o belo jovem deus Eros. Louca de paixão o beija e deixa cair gotas de cera de vela da lamparina no ombro de Eros, que acorda e sente-se traído gritando enlouquecido: o amor não sobrevive sem confiança.

Abandonada e em tristeza profunda, Psiquê procura Afrodite, que já tendo confinado o filho traidor (e ferido pela cera de vela que o causou ferimentos no coração) a castiga com sua esperteza e, logicamente, não a ajuda, exigindo que para ter Eros de volta teria que cumprir quatro tarefas, exigindo-lhe discernimento, criatividade, visão sistêmica e foco. A 'sogra' tinha em mente que Afrodite jamais conseguiria cumprir as provas, e que de tanto tentar as cumprir perderia toda sua graça e beleza, satisfazendo sua vingança.

Vista de trás do modelo em gesso patinado 'Psiquê revivida pelo beijo de Eros', de Antonio Canova, exposta no Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque.

A primeira prova consistia em sua habilidede para separar grãos conforme cada espécie quando colocada em um quarto com uma montanha destes grãos todos misturados. Cansada de trabalhar adormeceu, mas formigas amigas vieram e fizeram o restante de seu trabalho.

A segunda tarefa consistia em trazer para Afrodite a lã de ouro do velocino de ouro, uma longa jornada na qual encontra animais ferozes que a impediam de continuar a caminhada. Uma voz a ajuda e lhe conta onde está a lã, junto aos carneiros perto do rio, sendo que ela realiza a prova.

Afrodite está nervosa e esperando pela derrota de sua 'nora' na terceira prova, que consiste em escalar uma montanha para levar a Afrodite água suja da nascente de um rio que lá nascia, mas a montanha era muito íngrime e Psiquê não consegue subir, caindo logo no início da prova com o frasco de vidro na mão, mas é ai que mais milagres acontecem: as águas de Zeus, deus dos deuses, surgem e a levam para o alto, fazendo-a cumprir a tarefa.

A última investida de Afrodite foi obrigando Psiquê a ir para o Reino dos Mortos (país de Hades, Campos Elísios ou Érebo, mas esta história fica para outro post!) e pedir à Rainha Perséfone um pouco de sua beleza e trazê-la para a sogra. Pensou não voltar viva, mas convenceu a rainha a encher um baú de beleza para que ela entregasse para Afrodite. No entanto, no meio do caminho, pensando no quanto desgastou sua própria beleza nestas tarefas, caiu em tentação e abriu a caixa, resultando em um sono profundo.

Eros, já curado de seu ferimento, corre para socorrer a amada, fecha o baú e desperta a amada. Quando Psiquê entrega a caixa para Afrodite, Eros vai a Zeus e pede apoio para sua união com a amada, sendo que este convence Afrodite a aceitar o amor dos dois e através de uma cerimônia celestial Psiquê bebe ambrosia (a bebida dos deuses) é tornada imortal e unida a Eros. Logo depois tiveram uma filha e do encontro da alma com o amor deram o nome de Volúpia (ou Prazer).

Psiquê sendo resgatada por Eros (L'enlèvement de Psyché) de William Bouguereau

'Em grego "psiquê" significa tanto "borboleta" como "alma". Uma alegoria a imortalidade da alma, como a borboleta que depois de uma vida rastejante como lagarta, flutua na brisa do dia e torna-se um belo aspecto da primavera. É considerada a alma humana purificada pelos sofrimentos e preparada para gozar a pura e verdadeira felicidade.” (trecho retirado do Wikipedia).

Baseado no mito, Azevedo (2009) descreve uma perspectiva existencial humanista na qual articulam cegueira, amor e alma. Assim, a cegueira a que Psiquê é submetida pela noite pode indicar limitação da existência, mas também um mundo de oportunidades novas, motivadas por este sofrimento, onde ela pode experimentar ao máximo os demais sentidos voltados para a experiência do desejo. No entanto, tudo é perigoso e arriscado quando não se vê e trai seu amante, traindo também a si mesma, que não confiou em suas sensações de prazer, dando ouvidos à inveja das irmãs (inveja esta praticada pelo olhar das irmãs). Eros, na perspectiva do autor, vai embora, pois tem interrompido seu plano de prazer: viver o amor carnal, sensorial, como somente os humanos sabiam fazer.

Ao buscar Eros, Psiquê vai em busca do sentido de sua vida, de sua existência como pessoa, quebrando as incongruências cognitivas e sentimentais por que passa. Inquietação e tristeza a tomam neste caminho até Eros, pois caminha até o encontro de si mesma, passando pelo contato com Afrodite, a grande mãe, e cumprindo provas e desafios, com dor e provação. Decide ir ao encontro de si mesma nestas provas e alcança intensas ressignificações em sua existência. Ao final das provas, nas quais mostra resistência em se transformar, recupera a harmonia e o amor, não só de Eros, mas por si mesma. Neste ponto não termina a história, para o existencialismo, já que ao ter o encontro com o outro estará aberta a um novo mundo de acontecimentos, sensações táteis e emocionais, assim como sofrimentos e desconhecidas travessias. Assim, após a escuridão de sua cegueira, agora, com identidade, pode viver e ver a vida e o caminho por que anda, pois aprendeu a viver desafios.


FONTE:

Azevedo, P. W. (2009). Eros e Psiquê: o mito sob um olhar existencial e humanista. Revista Perspectivas on-line, 3(9), 122-134.

Godoy, K. A. B.; Gasparotto, L.; Mognon, J. F.; Cipolla, R.; Campos, D. C. (2010). Os (não) limites da perversão no amor pós-moderno. Trabalho Teórico e Curta-Metragem. Subjetividade e Pós-Modernidade, 6-8.


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