18 fevereiro 2011

Dois Pontos: O Vermelho Da Rosa

Por Kleber Godoy

Hoje decidimos postar um texto diferente: um conto escrito por mim e um dos vários que tenho escrito e registrado* no decorrer dos anos e que agora, incentivado pelo Jonathan, começo a publicar. Não sei se publico somente este ou se continuo no decorrer das semanas... vamos ver como se dá este primeiro encontro da minha ficção com o mundo exterior.

Para começar, a história de um jovem chamado Tony e de seu amigo Lorde Andrew em um encontro marcado pela presença de uma flor... cor paixão... e que pode te fazer perder a cabeça. Cuidado com esta pequena história de humor negro e... divirta-se... se puder.




O Vermelho da Rosa
(escrito e registrado por Kleber Godoy / pseudônimo: Tommy Callan / *todos os direitos reservados)


“Oi. Está atrasado hoje!”
“Não fique bravo! Tive outros afazeres, mas não me esqueci do nosso encontro.”
“Ahhh... não se lamente tanto. Sem problemas. Eu estava a admirar o jardim enquanto esperava-te. Estava prestando atenção a essa rosa e em como é viva sua cor e esplendida sua beleza. Incrível eu não perceber antes tal beldade.”
“Está muito poético, pequeno Tony. Aos 25 anos é muito bom! Significa que seu espírito jovem está mais vivo do que nunca. É por causa de alguma paixão recente?”
“Oh... Lorde Andrew, sabe que não há paixão alguma. Se houvesse seria o primeiro a saber. O primeiro, antes até de mim!” Havia paixão. Havia muita paixão no coração do jovem Tony. Ele mal percebera que desde a descoberta de sua saúde decadente começara a viver com mais intensidade e ver belezas onde antes não via.
“Na verdade, Lorde Andrew, penso eu que essa rosa é que está apaixonada hoje. Deve ter recebido um olhar diferente daquele lírio, seu vizinho, quem sabe.”
“Não seja bobo! Ela esteve sempre bela. Você que a ignorava.” O vento soprava baixinho naquela tarde. Lembrava tempos clássicos em que os príncipes passeavam por jardins enquanto admiravam a beleza das flores e suas mais diversas cores. Mas só lembrava. Hoje era diferente. Apesar de viver em épocas de príncipes, Tony não tinha nobreza em seu nome nem o azul no sangue. Não passava, agora, de mais um jovem da camada popular. Com gosto refinado e ares de realeza, mas ostentando as contas da vida que lhe caiam às mãos. A doença fazia-o pensar e refletir, renascer em sua juventude.
“Mary já vem com o chá. Sente-se, conte-me mais sobre suas viagens e seus atrasos pelo mundo afora. Muitos reis sendo depostos? Muitos príncipes cometendo delitos sexuais à surdina?”
“Oh sim, muitas coisas acontecendo. Ontem morreu uma duquesa perto de Aires. A coitadinha sofria de um mal estomacal e não parava de comer. Foi sua gula que a matou. Foram necessários seis fortes soldados para carregar o corpo do quarto.”
“Coitada! Essa devia estar mesmo muito ociosa em seu tempo. Já ouvistes falar que os comilões são os que não tem afazeres? Nesse tempo desocupado passam a comer sem parar. Foi o que li outro dia em uma revista.”
“Ah, não acredito em tal teoria. Banalidades, Tony!”
“Rá rá rá... oh... deixe-me explicar melhor. É uma preocupação e uma ansiedade que nasce desse tempo ocioso. A mente conturbada faz o estômago agir com mais fome... fome de uma coisa maior... fome de vida e de ser feliz.”
“Chega! Você está muito teórico hoje. Filosofia para mim, hoje não... não hoje. Afinal vim para saber se está tomando os remédios nos horários corretos.”
“Sim, estou. Mary já vem e poderá confirmar com ela. Mas não agüento mais! A toda hora vem alguém para me trazer este ou aquele copo de água, sucos, ervas e todo um aparato medicamentoso. Quando isso vai terminar?”
“Não fique triste, my friend. Vai passar. É só se cuidar.” Ambos olham para o céu enquanto Lorde Andrew confortava seu amigo. Gaivotas sobrevoam o largo jardim da casa de Tony. O dia parece perfeito para se fazer tudo. Perfeito para os enamorados. E para os passeios em família. Perfeito. Foi então que as nuvens começaram a se fechar anunciando chuva. Tempo fechado que penetra as almas dos rapazes no jardim.
“Tony! Você está chorando! O que está sentindo?”
“Nada. Eu acho que estou um tanto... sensível hoje.”
“Oh meu rapaz. Não fique assim, conte-me o que te aflige!!”
“Andrew, você não pode me ajudar. Ninguém pode. Eu só quero viver. Quero voltar aos bailes e me divertir como antes. Todos me adoravam e ninguém ficava a repulsar minha presença!! Hoje estou sozinho e só você vem me visitar. Todos têm medo de pegar a minha doença e caírem de cama ao terem contato comigo. Eu não sou um monstro! Não sou! Diga isso a ele! Eu não sou um monstro! Diga isso a ele!”
“Ele quem, meu amigo?”
“Ninguém. Devo estar ficando louco.” Diz enquanto limpa as lágrimas e volta a si, controlando-se e mudando a expressão facial. “Ainda tenho algumas crises quando tomo consciência de que vou morrer em breve.”
“Não diga isso. É só um mal que lhe causa tosses chatas e alguns vômitos de sangue. Mas isso vai terminar! Acredite!”
Passado alguns segundos sem palavras, os dois se entreolham como se houvesse uma comunicação extra-sensorial. Não havia palavras, mas havia entendimento. Sim, havia! Havia confiança, segredos revelados e guardados, angústias integrando-se.
“Cof, cof...” Um acesso de tosse interrompe a comunicação e Tony cai ao chão.
“Tony!! Levante-se. Vou chamar seu médico.”
“Não. Eu estou bem agora. Obrigado.” E Tony levanta-se devagar, com dores.
“Eu tenho medo por você. Você precisa se livrar dessas crises depressivas. Aliás, minha presença aqui é para que isso não aconteça mais, lembra-se do nosso pacto?”
“Claro. Amigos para sempre! Apoio seguro e incondicional!” Amigos para sempre. Pacto antigo. Pacto de sangue que Tony e Andrew fizeram. Pacto. Pactos. Pactos eternos, seguros, confiáveis, incondicionais. Era tudo o que Tony precisava!
“Nossa, já é tarde. Preciso ir olhar outras paragens. Você sabe, tenho uma vida um pouco atribulada.”
“Não espera o chá? Mary deve estar chegando com a bandeja.”
“Não posso. Amanhã volto para vê-lo e fico um pouco mais.”
“Você nunca fica até o chá. Mas tudo bem. Importa-me muito sua presença aqui. Apesar de muito pensar e esses pensamentos me deixarem um pouco perturbado, você faz-me esvaziar um pouco a mente fatigada pelos conflitos aqui presentes.”
“Não pense tanto. Descanse mais. Lembre-se da lição de hoje: nunca coma tanto, pois pode morrer pelo excesso. Vale para sua ingestão de teorias e filosofias também! Adeus.” Andrew sai e Tony volta-se novamente para a rosa. Chama-lhe a atenção uma borboleta que sobre ela pousa. Borboleta grande, espessa e negra. Fica ali por alguns segundos. Segundos espessos, fortes, reflexivos, densos. O que estaria Tony pensando nesse momento? Só ele sabe. Segundos espessos, fortes, reflexivos, densos. Segundos espessos, fortes, reflexivos, densos. Segundos espessos, fortes, reflexivos, densos...
E eu estou aqui a observar esses segundos de impacto. A rosa, a borboleta. Negra. Ele, olhar parado. Sentado. Mãos no queixo. Total atenção voltada à cena da rosa. Eu, total atenção voltada a Tony. Segundos se passam e Tony não pisca, não respira, não quer espantar a borboleta. Seu quadro está feito. Seu quadro em preto e em vermelho. Seu quadro, pintado, preto e vermelho Sua arte, pensamentos espessos, densos...
É nesse contexto que Mary chega. Uma senhora gorda, espessa, gelatinosa, rechonchuda. “Tony... seu chá está chegando. Onde está seu amigo?”
“Mary...” Tony diz em voz baixa, quase sem se mover. “Olhe a borboleta. Olhe que cena esplêndida esta borboleta a pousar sobre rosa vermelha! Olhe... olhe...”
“Ora!” Mary agita em seu tom forte e impetuoso. “Não vejo nada de belo nisso. Ela é negra e significa prenúncio de morte segundo a lenda dos antigos.”
“Olha o que fez! Espantou-a! Dê-me logo o chá e saia, sua velha! Quero ficar sozinho. Quero ficar sozinho! Sozinho, sem perturbações!” Agita-se, Tony.
Mary deixa o chá à mesa e volta para os corredores internos do Grande Hospício Hallawel. “Onde já se viu? Um mais louco que o outro! Tem um amigo imaginário que o visita todas as tardes, imagina estar em sua mansão e me têm como uma serviçal sua! Um dia ainda peço demissão desse emprego maldito e me vou para a América trabalhar em outro ofício! Ah, se vou! Eles não perdem por esperar. América, lá vou eu!” Mary, então, pára por um momento e olha para trás. “E ainda diz que é para deixá-lo sozinho! Será que não enxerga a quantidade exagerada de internos que circulam pelo jardim? Valha-me Deus!”
Continua a andar e cruza com dois médicos, de roupas impecavelmente passadas que conversam baixo enquanto andam: “Veja só, esta senhora que acabou de passar por nós. Pensa ela que é a empregada do hospital e até a deixamos levar chá vez ou outra a algum interno.”
“Casos curiosos, doutor, continue...” Respondeu o segundo médico, com voz mais branda e menos grave que o primeiro.
“Vindo trabalhar aqui terá que se habituar a casos como esses. Veja aquele rapaz sentado tomando chá. Está a conversar... com uma rosa. É um caso mais extremo, repare. Coitado... estudava filosofia numa grande universidade. Ficou louco de tanto pensar.”
“Entendo. Apesar de meu pouco tempo de trabalho, aceito o cargo. Farei o melhor possível, doutor.”
“Sim, tenho certeza! Afinal, você foi meu aluno!”
O novo médico pára seu olhar sobre a rosa adiante. A mesma com a qual Tony, agora, conversa e ri desvairadamente. “Aconteceu alguma coisa, garoto? Quer ir até o jardim socializar com os internos?” Ri o médico mais velho. “Podemos ir agora. Seu trabalho começa na segunda.”
“Sabe... estou perplexo. Meus olhos nunca beberam da beleza de rosa tão... pomposa! Nunca antes vi rosa de tão... intensa cor como aquela! Quem é o jardineiro do local??”

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