16 janeiro 2013

Dois Pontos: A Lição



A Lição

As sandálias do discípulo ressoavam surdamente nos degraus de pedra que levavam aos porões do velho mosteiro. Empurrou a pesada porta de madeira que cerrava os aposentos do ancião e custou a localizá-lo na densa penumbra, o rosto velado por um capuz, sentado atrás de enorme escrivaninha onde, apesar do escuro, fazia anotações num grande livro, tão velho quanto ele.

E o discípulo o inquiriu:

- Mestre, qual o sentido da vida?

O idoso monge, permanecendo em silêncio, apenas apontou um pedaço de pano, um trapo grosseiro no chão junto à parede e logo após, seu indicador ossudo e encarquilhado mostrou logo acima, no alto do aposento o vidro da janela, opaco sob décadas de poeira e teias de aranha.

O discípulo pegou o pano e subindo em algumas prateleiras de uma pesada estante forrada de livros conseguiu alcançar a vidraça, começando então a esfregá-la com vigor, retirando a sujeira que impedia sua transparência. O sol inundou o aposento, banhando com sua luz estranhos objetos, instrumentos raros e dezenas de papiros e pergaminhos com misteriosas anotações e signos cabalísticos.

O discípulo, sem caber em si de contentamento, a fisionomia denotando o brilho da satisfação declarou:

- Entendi, mestre. Devemos nos livrar de tudo que obste nosso aprendizado; buscar retirar o pó dos preconceitos e as teias das opiniões que impedem que a luz do conhecimento nos atinja e só então poderemos enxergar as coisas com mais nitidez, partindo então para a evolução.

E assim, o jovem discípulo fez uma reverência deixou o aposento, agora iluminado, a fim de dividir com os outros a lição recém aprendida. O velho monge, o rosto enrugado ainda encoberto pelo largo capuz, os raios do sol da manhã agora banhando-o com uma claridade a que se desacostumara, viu o discípulo se afastando e deixou escapar um tênue sorriso.

- Mais importante do que aquilo que alguém mostra é o que o outro enxerga... pensou ele.

E murmurando baixinho:

- Eu só queria que ele colocasse o pano no lugar de onde caiu.

Autor Desconhecido


Para entender a dinâmica do 'O Teatro Da Vida' visite a página sobre o blog.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

13 janeiro 2013

1001 Filmes: Malhas Da Tarde (Meshes Of The Afternoon)

DIREÇÃO: Maya Deren e Alexander Hammid;
ANO: 1943;
GÊNEROS: Curta, Vanguarda e Experimental;
NACIONALIDADE: EUA;
IDIOMA: mudo;
ROTEIRO: Maya Deren;
BASEADO EM: ideia de Maya Deren;
PRINCIPAIS ATORES: Maya Deren (A Mulher) e Alexander Hammid (O Homem).




SINOPSE: "Maya Deren é uma mulher aprisionada dentro de casa, sufocada pelo cotidiano doméstico. Ela é atormentada por múltiplas visões, se despedaça em diferentes personalidades, e não consegue diferenciar muito bem, enquanto cochila, o sonho da realidade. Seu olhar para por longos segundos em qualquer objeto doméstico: uma faca em cima do pão, a porta destrancada, o telefone fora do gancho." (Adoro Cinema)


"É um filme bastante perturbador, angustiante, que incomoda e causa medo, mesmo tendo raros momentos de leveza com a dança da personagem principal, ou poderia dizer, da atriz que a interpreta, uma vez que a história retratada foi um recorte da própria vida da atriz. O jogo de câmeras dá uma agilidade incomum para um filme dessa época, assim como, a sobreposição de várias imagens da mesma atriz em movimento, com uma qualidade bem a frente do seu tempo. Também há de se ressaltar a utilização da câmera lenta meticulosamente encaixada a sequência do filme. Apesar da música ter sido acrescida ao filme somente 10 anos depois, se encaixa perfeitamente à trama, deixando ainda mais afloradas as sensações já citadas."

(1: Ruim; 2: Regular; 3: Bom; 4: Ótimo; 5: Excelente)
Jonathan Pereira





"A vida tem encontros interessantes. Neste caso, Alexander Hammid, fotógrafo tcheco, e Maya Deren, cineasta, coreógrafa, dançarina, poeta, escritora e fotógrafa, nascida na Ucrânia. Ambos fugidos de seus países por motivos similares em época de guerra, se encontrando e se tornando vanguardistas no cinema americano. Neste curta de 1943 é mostrado as malhas que tecem a vida, que aprisionam ou libertam. Adrian Martin, crítico de cinema australiano diz que Maya queria mostrar a questão feminina e o aprisionamento da mulher, talvez querendo destacar questões únicas de uma época em que o poder masculino predominava. Para a atualidade vale a pena pensar sobre esta questão de diversos ângulos, refletindo em como o confinamento das pessoas, dentro delas mesmas, pode provocar a loucura e a perda da saúde mental ou física: uma desfragmentação do ser. O filme é curto e fantástico, envolto por um clima noir, com medo, pulsão de morte, pesadelos e itens simbólicos como uma escada, uma chave, a mulher e o homem... gerando múltiplas interpretações da combinação entre eles. Enfim, com estilo único e mesmo morrendo jovem, o trabalho de Maya é estudado nas principais escolas de cinema do mundo, deixou grandes obras para a humanidade."

(1: Ruim; 2: Regular; 3: Bom; 4: Ótimo; 5: Excelente)
Kleber Godoy





Para entender o que são os '1001 Filmes', acesse a página explicativa.

Para entender a dinâmica do 'O Teatro Da Vida' visite a página sobre o blog.






















Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

04 janeiro 2013

Reformulações, 300.000 Interferências E 2013

Há exatos dois anos e dois dias reformulamos o blog e começamos a saga dos 1001 Filmes, e ao longo desse tempo, o que era para ser uma revisitação ao livro e um local onde pudéssemos compartilhar nossas percepções sobre cada filme assistido, acabou se transformando em um passatempo cultural para nós.

Hoje temos mais de uma dúzia de seções que abordam várias vertentes de arte e cultura, nos ensinando, nos fazendo crescer e levando esse nosso recorte sobre o mundo a mais de 140 seguidores e 300.000 visitas, o que torna esta jornada cultural não mais dos seus autores, e sim, de todas essas pessoas que chegam para absorverem e partilharem o que há aqui.

Nesse tempo houveram, claro, momentos de crescimento, ânimo, tristezas, ausências, inovações, aprendizados, trocas, descobertas, amizades, alegrias, dificuldades, surpresas, erros, acertos, enfim, houve uma vida dedicada ao blog e compartilhado com todos que aqui passaram e não voltaram, passaram e ficaram ou nem se quer passaram, e quem sabe, passarão.

Em 2012 o tempo foi ficando escasso e nós não conseguimos nos dedicar como havíamos planejado em 2011. Nos ausentamos, enquanto nos dedicamos a aprimorar nossa vida real, e com a chegada de um novo livro em branco, que é 2013, nós começamos a escreve-lo e reservamos algumas páginas para o nosso O Teatro Da Vida. É verdade que as páginas reservadas a ele tiveram um diminuição em comparação ao livro de 2012, mas ainda sim, será um dos destaques de 2013.

Desejamos a todos que passaram, passam e passarão por aqui, um 2013 repleto de cultura, aprendizado, filme, arte, música, humanidade, crescimento, pinturas, pessoas e vida!


Para entender o que são os '1001 Filmes', acesse a página explicativa.

Para entender a dinâmica do 'O Teatro Da Vida' visite a página sobre o blog.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...