16 março 2012

Trajetória: Johnny Depp (Parte III)

Por Kleber Godoy


Após o sucesso de 'Edward Mãos-De-Tesoura (Edward Scissorhands, Tim Burton, 1990)' Depp fez uma aparição breve naquele que deveria ser o sexto e último filme da série de Freddy Krueger, 'Pesadelo Final: A Morte De Freddy (Freddy's Dead: The Final Nightmare, Rachel Talalay, 1991)', esse filme da série 'A Nightmare On Elm Street' e é tido pelos críticos como uma das piores, senão a pior sequência da série. O filme apela para humor, com pouco terror (este filme também será comentado em detalhes em outra postagem).

Entre as participações especiais está a de Johnny Deep, que estreou no cinema no primeiro 'A Hora Do Pesadelo'. Ele aparece em um programa de TV mostrando o cérebro de um drogado, ou seja, um ovo fritando, antes de ser atingido por Freddy no rosto com uma frigideira.

É. Cuidado para não fritarem seus cérebros, crianças!



Johnny Depp completa 27 anos de vida, oito de carreira e já conta com seis filmes e uma série em seu currículo, mostrando toda sua independência e maturidade, participando de filmes segundo seu desejo e não segundo o que esperam dele. Neste sentido, personagem, roteiro e diretor são os atrativos para ele aceitar trabalhar em um filme, não o potencial financeiro da obra.

Em sua vida pessoal vemos que após três anos com Winona Ryder o relacionamento sucumbiu e parece que o motivo foi o peso da carreira de ambos e da imprensa que inventava traições, perseguia-os e os sufocava. Mas o relacionamento foi bem sucedido, apesar do seu fim, fazendo com que ele tatuasse em seu braço a expressão 'Winona Forever'. Bem, após o fim do noivado ele mudou a frase para 'Wino Forever', o que significa 'bêbado para sempre'. Sugestivo?


Neste sentido parece que Depp viu em seus trabalhos em filmes independentes uma forma de conjugar prazer e distanciamento dos holofotes que tanto o incomodavam desde sempre. Para fugir dos paparazzis abriu sua própria casa noturna, a The Viper Room, um lugar privado, pequeno e descolado, com boa música onde poderia se divertir.


Em 1992 parece que Depp trabalhou bastante, estreando em 1993 não somente um, mas três filmes. Em 'Benny & Joon: Corações Em Conflito (Benny & Joon, Jeremiah S. Chechik, 1993)', Depp representa Sam, um rapaz excêntrico que vive imitando Charlie Chaplin e vive de forma totalmente descontraída, que por acasos do destino vai morar na casa do mecânico Benny (Aidan Quinn). Nesta casa ele encontra Joon (Mary Stuart Masterson), irmã de Benny, que tem deficiência mental, se apaixonando por ela. Este filme é dramático pela história da família de Benny e pela deficiência de Joon, mas a partir do encontro dos dois jovens apaixonados, nos deparamos com uma história de amor e superação de tirar o fôlego. O filme ainda conta com Julianne Moore no elenco em um de seus primeiros filmes.





Uma obra de arte que rende drama, comédia e romance, tendo boa repercussão, rendendo a Depp a indicação de melhor ator no Globo De Ouro e de melhor comediante no MTV Movie Awards, assim como de Melhor Dupla para ele e Mary Stuart Masterson no mesmo evento.

Outro filme estrelado por Depp foi 'Gilbert Grape: Aprendiz De Sonhador (What's Eating Gilbert Grape, Lasse Hallström, 1993). Gilbert (Depp) é um adolescente de uma pequena cidade do interior e sustenta a família desde a morte do pai. Nesta família encontramos além do personagem de Depp, três irmãs excêntricas e o irmão deficiente mental Arnie, representado por Leonardo DiCaprio, além de uma mãe obesa, que não parava de comer desde a morte do marido, vivendo de forma deprimente dentro da casa, cada vez maior.


Leonardo DiCaprio mostra, ainda muito jovem, com este papel, um talento esplêndido. A atuação de Depp é muito boa e essencial ao filme, mas a cada aparição de Arnie os olhos de quem curte cinema brilham de tanto prazer, causa arrepios. Darlene Cates, a mãe da família, parece que só teve este papel no cinema e continuou a vida com seu drama real de obesidade mórbida.

No elenco também encontramos outros grandes talentos: Juliette Lewis, Laura Harrington, Mary Kate Schellhardt, Kevin Tighe, John C. Reilly e Crispin Glover. E uma curiosidade do filme é que Johnny Depp, em uma cena, teve que agredir o seu irmão deficiente mental, sendo que isso lhe causou enorme culpa, o que o fez ficar se desculpando com o ator Leonardo DiCaprio até o final das filmagens. No mais, quanto a prêmios, DiCaprio foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e ao Globo De Ouro na mesma categoria. Na premiação do Chicago Film Critics Association Awards ele venceu na categoria de Ator Mais Promissor. Depp e os demais talentos do filme foram ignorados pelos eventos, assim como o filme em si.




O drama vivido pela família Grape dá margem à muitas reflexões existenciais e acredito ser um dos filmes essenciais para se pensar a família e a interligação entre seus integrantes através do tempo, a história que constroem, consciente e inconscientemente. Depp, nesta época estava melancólico e lembrando muito de sua família, já que a configuração familiar do filme, excluída e cheia de angustias, o remexeram por dentro. Foi uma época em que ele bebia muito e praticava de forma desmedida a autodestruição. Porém, alertado pela família e por verdadeiros amigos, retomou o caminho rumo à vida.




Em seguida assistimos a Depp em 'Arizona Dream: Um Sonho Americano (Arizona Dream, Emir Kusturica, 1993). Neste filme ele interpreta Axel Blackmar, um rapaz apaixonado por peixes, que se mudar de Nova Iorque para o Arizona, para cuidar dos negócios da família, a pedido do tio, Leo Sweetie (Jerry Lewis), que iria se casar. Assim, vemos um rapaz deslocado, mas que também encontra aventura em sua nova vida ao conhecer duas estranhas mulheres, a viúva quarentona Elaine (Faye Dunaway) e sua enteada, Grace (Lili Taylor). Ele se envolve emocionalmente com uma delas, enquanto a outra, rica porém depressiva, toca músicas no acordeão. Axel sonha com peixes voadores e aventuras no Alasca, Elaine sonha em construir uma máquina voadora, e Grace em se tornar uma tartaruga. Há roteiro mais criativo que este?




Os três personagens e seus sonhos interagem com a realidade e fazem desta história um filme surreal, misturando o real e o imaginário e emocionando tanto nos momentos de calmaria quanto nas crises de relacionamento entre este trio, que envolve amor, ódio, ciúmes, comédia e trajédia sendo que cada ingrediente é altamente bem dosado. Jerry Lewis, agora obeso e bem diferente daquele do início de sua carreira, abrilhanta o filme com seu talento ímpar. Enfim, foi mais um filme deixado de lado pelas premiações principais, apesar de todo brilhantismo de roteiro e produção, mas conquistou algo muito importante, que foi o Prêmio Especial Do Júri do Festival De Berlim.



Podemos concluir que este período da vida de Depp, que continua a seguir da mesma forma, se configura com filmes de baixo orçamento e, consequentemente, pouca bilheteria e publicidade, mas com personagens imensamente profundos, histórias que deixam aprendizados para a vida e profissionais que, apesar de não serem conhecidos à época, estavam ali mostrando todo seu talento. Depp sempre soube muito bem com quem se envolver.

Ah, lembram do barzinho que Johnny abriu para se divertir? Então, em 1993 tocava em uma noite com o baixista do Red Chilli Pepers e estava presente, bebendo e curtindo a noite, o ator River Phoenix, seu amigo, que cambaleou até a rua, perdeu a consciência e morreu de overdose por drogas. Neste momento a casa foi fechada por Depp por duas semanas, em luto ao amigo. A imprensa não deixou barato, é claro, caindo em cima de Depp. Ele respondeu calmamente falando do quanto a família precisava descansar por seu ente querido morto. Até 2000, Depp ainda era sócio da casa, mas após muitos problemas e um processo contra ele, movido por seu sócio, vendeu sua parte e não é mais o dono do empreendimento.


Bem, por enquanto é isso, a quarta parte desta brilhante história será postada em breve. Até lá! Leia também as outras partes já publicadas desta trajetória: primeira e segunda.


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