28 novembro 2007

O Velho Hoje

Por Kleber Godoy

A publicação de hoje envolve o tema dos museus e constitui-se de dois textos tratando de notícias direto da Europa. Espero que seja agradável a leitura destes, já que os selecionei com cuidado para você.


Até que ponto a gratuidade dos museus pode ampliar o seu público?

Por Nathaniel Herzberg, tradução de Jean-Yves de Neufville
15 setembro 2007
Ela havia sido prometida por Nicolas Sarkozy. Ela havia sido anunciada por Christine Albanel, a ministra da cultura. A experiência acaba de ser aprovada. Em 1º de janeiro, um pequeno número de museus nacionais tornarão gratuito o acesso à sua coleção permanente. Os serviços da Rua de Valois (do ministério da cultura) transmitiram para Matignon (sede do primeiro-ministro) uma primeira lista de nove estabelecimentos: em Paris, o Museu das Artes Asiáticas Guimet e o Museu da Idade-Média, situado no Hotel de Cluny; o Museu Nacional de Arqueologia em Saint-Germain-en-Laye (Yvelines, região parisiense); o Museu Nacional do Renascimento no castelo de Ecouen (Val-d'Oise); o palácio Jacques-Coeur, em Bourges; o Museu da Porcelana em Limoges; o Museu Magnin em Dijon; o palácio do Tau em Reims; as coleções contemporâneas do castelo de Oiron (Deux-Sèvres).

A esta lista poderiam acrescentar-se um ou dois outros estabelecimentos que dependem de outras administrações, seja do ministério da defesa ou da educação nacional. Sobretudo, deverá se juntar a este um segundo grupo de museus, que terá a função de testar uma série de medidas mais específicas. Alguns deles estenderão para a população de 18 a 25 anos a gratuidade já oferecida aos menores de 18 anos nos museus nacionais. Outros poderiam oferecer o acesso livre todos os domingos, em vez de limitá-lo ao primeiro domingo de cada mês.

Em todo caso, os sete primeiros estabelecimentos escolhidos receberam a notícia de maneira diversa. Após ter sido informado dela na manhã de quarta-feira, Paul-Hervé Parsy, o administrador do castelo de Oiron, comemorou a novidade. "Nós temos uma freqüência de visitações modesta, de cerca de 20.000 pessoas por ano, e uma coleção muito bonita. Em termos de receitas, portanto, os valores em jogo são reduzidos, mas em termos de imagem, a inovação é muito importante. A escolha me parece ser muito coerente".

A mesma satisfação foi manifestada no Museu de Arqueologia de Saint-Germain-en-Laye. O castelo já conta 70% de visitas gratuitas, sobretudo escolares. "Aos domingos, em contrapartida, nós vemos muitas famílias que fazem passeios no domínio de Saint-Germain desistirem da visita quando descobrem que é preciso pagar (4,5 euros - cerca de R$ 12 - por adulto)", sublinha Patrick Périn, o diretor. "Incentivar essas pessoas a se aproximarem da arqueologia apresentaria um real interesse".

No Museu Guimet, ao contrário, a decisão não foi muito apreciada. Recentemente, o seu presidente, Jean-François Jarrige, havia argumentado junto ao ministério da cultura que ele considerava o seu museu como "pouco representativo" para uma operação desse tipo. "Eu não sou contra esse teste, nem contra a eventual gratuidade dos museus", acrescenta. "Mas, se uma experiência como esta for implementada, é preciso que ela seja conduzida com o máximo de sinceridade. Além disso, nessas condições, teria sido necessário colocar algum museu realmente importante, do tipo do Beaubourg, na balança".

Além de tudo, Jean-François Jarrige diz temer as conseqüências da experiência sobre as receitas de bilheteria (300.000 visitantes), obviamente, mas também sobre a imagem do museu e, portanto, sobre o mecenato que lhe permite organizar as exposições temporárias.

Estes são alguns dos elementos que deverão ser avaliados com uma lupa, ao longo dos seis primeiros meses do ano de 2008, em previsão de uma eventual generalização em 2009. Uma concorrência pública deverá ser aberta nos próximos meses junto a organismos de pesquisas, cuja missão será de medir o impacto dos dispositivos testados. "Ao abranger Paris, a região parisiense e a província, e ao incluir grandes e pequenos museus, nós vamos poder contar com uma amostragem bastante diversificada que nos permitirá observar o comportamento dos públicos", precisa um responsável em Matignon. "A quem beneficia a medida? Em relação a qual museu? Para qual tipo de público?"

Pois é evidentemente esta a pergunta a ser feita. Na Grã-Bretanha, as coleções permanentes foram tornadas gratuitas em 2001. Os museus municipais parisienses suprimiram os ingressos pagos em 2002. Em todos os casos, a medida aumentou o número de visitações, embora com duas ressalvas: "Nós observamos um efeito lua-de-mel no início; depois disso, o número de visitações volta a diminuir", sublinha Anne Gombault, a responsável do departamento de artes, cultura e administração na Escola de Administração de Bordeaux. Se a avaliação for feita em relação a um período de seis meses, será que não corremos o risco de medir apenas este pico? Acima de tudo, os grandes beneficiados pela gratuidade são... os freqüentadores habituais do museu. "As pessoas retornam, e se mostram mais descontraídas", insiste Catherine Hubault, a subdiretora do Patrimônio da Cidade de Paris. "A imagem do museu mudou. Mas não a idade, nem o perfil sociológico dos visitantes".
Diante disso, seria mesmo o caso de incluir na conta dos impostos as visitas repetidas dos aficionados, ou ainda aquelas dos milhões de turistas estrangeiros que pagam sem qualquer problema os 9 euros (cerca de R$ 24) do ingresso no Louvre? No ministério, ninguém sabe responder. Mas, nem o Louvre, nem o Museu d'Orsay, nem o Centro Pompidou foram inscritos entre os que serão submetidos a esta experiência.



Artistas elegem o 'museu ideal' para celebrar Europa

Por Márcia Bizzottoem
16 outubro 2007
Uma escadaria em Florença, pinturas feitas por homens da caverna e quadros de pintores renascentistas estão entre os escolhidos por alguns dos nomes mais respeitados da arte européia para comporem um 'museu imaginário' que celebra a diversidade da arte na Europa.
A escolha foi feita por 27 artistas da União Européia - um de cada nacionalidade do bloco - escolhidos pela organização do evento. A cada um foi pedido "uma obra de arte que considera mais simbólica dentro da história" do continente.
As obras do 'museu imaginário' são apresentadas em um vídeo, um dos principais destaques da Europalia, uma bienal de arte que ainda inclui uma série de eventos de artes plásticas, música, teatro, dança, literatura e cinema e que fica em cartaz em Bruxelas até fevereiro de 2008.
O resultado é uma lista de obras e monumentos que, em alguns casos, não caberiam em um museu, mas "refletem os sentimentos e a experiência pessoal de cada artista", acreditam os organizadores.
RELATOS
O escritor português José Saramago, por exemplo, elegeu a escadaria da Biblioteca Laurentina de Florença, na Itália, projetada por Michelangelo.
"É preciso vê-la para acreditar que a perfeição absoluta existe. Foi a primeira vez que, vendo uma obra de arte, senti que meu corpo estremecia", explica em um relato emocionado.
Para o cineasta espanhol Miquel Barceló, o "grande descobrimento artístico dos últimos séculos" são as pinturas rupestres da caverna de Chauvet, descoberta no sul da França a meados do século passado.
"Esses desenhos saíram da mão de um mestre absoluto. Ele retrata leões que conhecia como nós conhecemos nossas namoradas", afirma o catalão, para quem as pinturas "são de um refinamento que faz pensar em Pisanello e no Renascimento".
As declarações foram compiladas no idioma nativo de cada artista, no vídeo que integra O Grande Ateliê, uma das mostras da Europalia.
A lista do 'museu imaginário' inclui a Arena de Verona, na Itália, escolhida pela soprano búlgara Rayna Kabaivanska, e o complexo monolítico Stonehenge, na Grã-Bretanha, favorito do diretor de filmes de animação estônio Priit Pärn.
Entre os pintores, Caravaggio, Diego Velásquez e Piero della Francesca garantiram um lugar nessa seleção. Os dois primeiros foram eleitos pelo diretor de teatro britânico Declan Donnellan e pelo poeta esloveno Tomas Salamun, respectivamente. Della Francesca foi o único escolhido por dois artistas: o arquiteto italiano Gae Aulenti e o escritor irlandês John Banville.
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