14 julho 2006

Adão e Eva no divâ do século XXI

Por Kleber Godoy

Talvez você, neste momento, não esteja pensando em ninguém, mas com certeza alguém está pensando em você. Uma teoria meio batida, porém, os sentimentos nunca saem da moda e vale a pena estudá-los, investigá-los. E tenha certeza: se você se sente sozinho ou sozinha, alguém está pensando em você neste segundo.

E nada melhor que a psicologia para fazer este trabalho investigativo, mesmo que muitas das respostas buscadas não existam. Isso porque a ciência não consegue adentrar todos os cômodos de um ser tão complexo quanto o homem. Sendo assim, apesar dos grandes avanços científicos, uma mesma pergunta pode conceber várias respostas, uma para cada caso ou para cada grupo de pessoas. Sabe-se, portanto, que o sentir não pode ser investigado tão universalmente quanto se pensa.

Entretanto, são louváveis todas as descobertas da pesquisa científica e todo conhecimento acumulado e descrito, fornecendo provas para desmentir muitas crenças que, infelizmente, permanecem por muito tempo como verdades inabaláveis até serem derrubadas. E quando isso acontece nos perguntamos se esta “nova verdade” é a verdadeira ou se alguém irá derrubá-la no futuro, trocando-a por uma teoria mais inovadora. Não sabemos! Certamente muitos cientistas no futuro irão rir de teorias que temos hoje, assim, como nosso tempo o faz com alguns do passado.

Contudo, o ser humano e suas emoções são muito individuais e fascinantes, não ficando fora do roteiro de estudos contemporâneos e eternamente em voga. Isso porque cada um de nós é um ser único e com vivências únicas, sentidas somente por nós e mais ninguém. Mesmo que a psicanálise e todas as formas de terapia consigam resolver muitos dos problemas pessoais do objeto humano, elas se dão através da análise centrada em cada indivíduo ou cada grupo de indivíduos que mostrem problemas semelhantes. Sendo, obviamente, centradas nos estudos e no conhecimento profissionais, baseados no universal.

E quem ainda não viu aquele comercial dos sabonetes Albany, mostrando as diferenças entre os gêneros masculino e feminino. Nele, o marido joga a toalha molhada na cama e a mulher a pendura. O homem coloca sua cueca no cesto e a mulher a pendura no banheiro (oh, Deus!). O homem assiste ao futebol, gosta de massagem. A mulher assiste à novela e precisa de carinho. Isso é universal? Todos os homens deixam a toalha sob a cama e todas as mulheres a penduram? Evidente que não. Mas é uma amostra da maioria, dando uma revisitada no contraste de gêneros, onde fatores muito interessantes no corpo humano determinam essas diferenças, a colocam em evidência e preenchem esses dois universos tão distintos e tão necessariamente combinados entre si.

A inversão mais evidente nesses termos, é claro, está nos homossexuais. Mesmo assim é bom lembrar que não existe o universal, mas talvez uma maior tendência. Mesmo porque quase todos os homossexuais homens que conheço tenham as características de não gostarem de futebol e assistirem a novelas, dialogarem a dormirem etc. Porém, não ousaria investigar o porquê de, em um casal homossexual, um estar na sala assistindo ao jogo da copa do mundo e o outro no quarto, lendo notícias sobre arte e verificando qual a próxima peça de teatro em cartaz. Mas lembrando que os dois são homossexuais. E então assistem juntos à novela, tem o diálogo e o carinho necessários de um casal. Mas tendo a mesma orientação sexual são diferentes, talvez para que aconteça o amor, o sentimento que os sela como uma só pessoa. E ai estão os sentimentos em meio às diferenças de gênero, deixando um exemplo evidente da complexidade que descrevi do objeto humano.

Em termos de orientação sexual, para se pegar um atalho pelo corredor científico, pesquisadores têm diferentes teses para o comportamento homossexual, sendo a psicologia e a biologia duas grandes irmãs, juntas para descobrir causas e estudar casos. Estando os vários fatores (genéticos, biológicos, hormonais e neurais) envolvidos na orientação da sexualidade do indivíduo, e os estudos não sendo conclusivos, há de se ter muito trabalho para que possamos chegar a respostas, e talvez essas nem existam. Aliás, talvez não fosse ético entrevistar Deus sobre todos esses assuntos ou ele nem os quisesse responder. E ainda, talvez nem precisemos saber tudo sobre determinados assuntos. Não é mesmo?

E quando, em um jantar qualquer, se pergunta a um homem e a uma mulher o que é essencial em um relacionamento? O homem responde que é sexo e a mulher responde que é o companheirismo. Que trágico! Mas fatores biológicos dizem comprovar a atuação de hormônios entre os dois e a maior tendência masculina para o sexo e infidelidade. No entanto, vale ressaltar, o respeito entre duas pessoas que se amam não tem desculpas biológicas. Sendo os sentimentos, o caráter e o entendimento entre os dois que embasam a vivência amorosa. E presentes estão, juntas nesse caso, mais uma vez, a biologia e a psicologia.

Sendo tão diferentes uns dos outros, entramos em conflitos, vivemos aventuras, choramos, sofremos, sorrimos e escrevemos nossas vidas da melhor forma, da forma mais deliciosa ou mais trágica, dependendo do capítulo em que estamos, mas formando em detalhes o maravilhoso complexo humano e a individualidade de cada um. Se entre cada um de nós há discordâncias não poderia deixar de haver entre os pesquisadores e para a ciência.

Para tanto, vale lembrar que muitos homens usam a linha de sabonetes exclusivamente femininos, são mais carinhosos que outros homens, compreendendo perfeitamente o universo feminino. Muitas vezes são heteros, outras sendo homos e grandes amigos das mulheres. E nessa confusão toda, a mulher, mais sentimental, sempre sofre, pois gostaria imensamente de ter um marido gay.


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Dedico este texto ao Jonathan.
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